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Esse foi um daqueles finais de semana reflexivos. Incontáveis pensamentos complexos e de caráter existencialista passaram por essa caixola de cabelos castanhos e (atualmente) verdes. Vou começar do começo. Voltemos no tempo: janeiro de 2013. Uma época longínqua de muitas promessas e expectativas elevadas, hahahaha. Faculdade nova. Mudança de casa. Agenda cheia. Viagem turística pro exterior com a família. Novos amigos. Novo business. Um quase-casamento com o namorado.

As novidades eram positivas e excitantes. Seria um novo período da vida, cheio de descobertas, emoções e muito, muito esforço, dedicação e paciência. É claro que meu espírito jovem abraçou a ideia de pronto e decidiu que seria baba enfrentar todos os contras com tantos prós adiante. Ahhhh… a inocência! Como ela é autêntica e progressista! Ela cria imagens invertidas da realidade na nossa cabeça e nos faz acreditar que mudanças grandiosas são comparáveis à uma atualização de software no computador. “Vem por aí a versão 2.1.6 da minha vida”.

Os tempos foram mesmo mágicos – e sobrecarregados de emoções. Minha mente ficou tão recheada de informações novas pra assimilar que metaforicamente eu quase explodi. Traduzindo pra vida real e fisicamente possível: eu me transformei em um poço de stress. Como todo bom sentimentalista, eu adoro colecionar distúrbios. Ansiedade, insônia, TDAH, entre outros. Juntando o stress social com meu quadro neurológico, acabou que meu cérebro decidiu descompensar minha saúde na tentativa de alertar que alguma coisa não tava indo bem por ali.

Eis que então desenvolvi uma série de doenças psicossomáticas, entre elas: gastrite, amigdalite crônica, enxaqueca e fibromialgia. Passei boa parte do meu ano tomando antibiótico, indo à consultas que não resolviam lá muita coisa e reclamando de dores no corpo. Eu não entendia por que diabos os médicos não conseguiam me consertar. Em 2013 tive mais de 15 quadros de amigdalite e cheguei até a marcar a cirurgia pra remover a bendita. Fiquei com um medo danado de ficar com uma febre reumática e ganhar de brinde um problema cardíaco… mas enfim. Foi só agora em 2014 que a ficha caiu e eu entendi a porra toda.

Nem médico, nem remédio e nem pai de santo conseguia curar meus problemas porque vinha tudo da minha cabeça. Só euzinha aqui poderia desembolar as minhocas que eu inventei. E aí eu parei pra pensar que a vida é mesmo muito doida, muito curta e muito frágil pra gente parar de se perceber. É muito fácil se deixar levar pelas coisas superficiais e esquecer de olhar pra dentro. E aí que às vezes pode ser tarde demais, sabe?

2014 foi um ano leve. As emoções acalmaram, a agitação passou, os problemas emocionais se estabilizaram. Nesse ano, tive só dois quadros de amigdalite até então. Já era de se esperar, afinal, tenho propensão por conta de todos os meus problemas respiratórios (asma, sinusite, rinite e todos os “ites”) e da herança que o stress de 2013 me deixou. Juro que as reclamações e listagens de doenças já tão acabando, hahahaha #SouUmaVelha #OCasoDeBenjaminButton

Ok, e o que isso teve a ver com meu fim de semana de reflexão? Bom, minha segunda amigdalite do ano começou na semana passada, e estourou de vez nessa sexta-feira. Aí que eu decidi passar o fim de semana com meus pais, pra ser cuidada, mimada, respirar um pouco de ar puro nos interiô e matar a saudade da família que eu não via há um tempão por conta do trabalho e dos estudos. E isso me fez pensar bastante.

lago

Eu tava ali, toda imersa nos meus novos planos pro futuro e usando cada segundo do presente pra arquitetar todo e qualquer detalhe do trajeto que me levaria à glória do alcance de minhas metas. Agarrei meus objetivos com força e deixei pra trás um bocado de manias, caprichos e boa parte da minha preguiça física e mental pra “levar a vida mais a sério”. É claro que tudo isso tem a ver com dinheiro. Tem a ver com realizações, conquistas, mérito, reconhecimento. Mas nesse momento em especial, seria hipocrisia da minha parte dizer que o dinheiro fica em segundo plano.

Eu não quero dinheiro pra ter dinheiro. Eu quero ter dinheiro pra realizar coisas. Pra ajudar meus pais. Pra conhecer o mundo. Pra ter tempo pra me conhecer melhor, cuidar de mim mesma e de quem eu amo. Mas esse jogo de ganhar dinheiro pra alcançar a felicidade é feito em cima de uma corda bamba, e o risco de cair dela e espatifar a cara no chão é muito grande. Às vezes a gente se perde no meio do jogo e esquece até porque entramos nele pra começo de conversa. Nos enfronhamos em um ciclo sem fim que faz com que nos distanciemos daquilo que é infinitamente mais valioso que qualquer riqueza material no mundo, e o mais perigoso é que fazemos isso sem perceber.

Eu não compro papo de hippie de boutique. Dinheiro é bom sim, é importante sim e, no sistema em que escolhemos viver – o capitalismo, que não é perfeito, mas de todos que nos foram apresentados até hoje é claramente o que funciona melhor (minha opinião, não enche o saco) -, é essencial sim. A menos que você decida que se converterá em eremita e viverá isolado na floresta caçando sua comida, dormindo na terra e conversando com os pássaros, você precisa de dinheiro pra viver, e tenho certeza que todo mundo aí almeja viver com qualidade, e da melhor.

O erro é você entrar na paranóia de ganhar dinheiro pra ajudar sua família, por exemplo, e esquecer que ela existe no meio do caminho. Passar o fim de semana com a cara enfiada no computador e não reservar uma horinha do seu dia pra conversar com seus filhos, porque tem muito trabalho pra fazer. Não prestar atenção no que sua esposa fala porque tá com a cabeça no serviço. Deixar de visitar seus pais e não dar nem um telefonema pra perguntar se eles tão bem porque tem muita coisa pra resolver.

Não dá pra perder a vida que a gente tem nas mãos pra tentar alcançar um ideal de vida projetado.

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Voltando… Fui pra casa dos meus pais. Comi morango com suspiro, coloquei meus pézinhos na água, tomei sol (depois de dois meses sem saber o que era isso), abracei e beijei meus bichinhos, subi em árvore, andei descalça na grama, conversei por horas com meu pai, assisti o últime filme do Wagner Moura com a minha mãe, almocei com a minha avó, dei risada, li e escrevi por prazer (sem compromissos acadêmicos), parei de checar as horas no celular, desliguei meu cérebro e relaxei. E só aí que eu lembrei o quanto isso é precioso. O tempo que a gente tem agora!

antonia

O futuro é lindo, promissor e o presente é decisivo pra construção desse império de realizações que queremos concretizar. Mas o agora é tão importante! E é tão difícil saber se estamos aproveitando-o suficientemente, né? Dá medo de tomar as decisões erradas, não saber dosar o tempo dedicado ao passado/presente/futuro, e de repente nos vemos no meio de uma crise existencial, procurando respostas em qualquer lugar que pareça dar uma pista de qual o caminho certo a ser seguido. É horóscopo pra lá, intuição pra cá, conselho de mãe pro outro lado, livro de auto-ajuda pra cima e pra baixo…

arvore

Essas especulações podem não levar a lugar nenhum. Qualquer niilista ficaria de cabelo em pé lendo um texto desses! Hahahaha. Mas tava tudo aqui guardado e eu quis externar. E na real que eu só quis escrever tudo isso pra tentar acalmar essa minha ansiedade por tentar manter tudo sob controle e dizer pra mim mesma que eu posso relaxar e que tudo vai dar certo. E que eu tenho que trabalhar bastante mesmo pra conseguir alcançar tudo (ou pelo menos uma parte) do que desejo, mas não posso perder a praia, o sol, o mar, a grama, o ar, a lua, as estrelas e todas essas coisas que me fazem tão feliz. Ontem eu percebi isso e senti uma baita falta do silêncio dentro da minha cabeça.

Agora deixa eu dormir que já são 7 horas da manhã e às 10 eu tenho que estar de pé pra tocar meus projetos pra frente. Mas já prometi pra mim mesma que no fim de semana eu vou cuidar do meu eu espiritual – e se ele quiser comer hambúrguer e ver Netflix durante 48 horas seguidas pra se sentir cuidado, assim será. Parabéns se você chegou até aqui! Você é muito paciente e possivelmente tem aptidão pra ser psicólogo. Um bom dia pra vocês <3