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São Paulo é uma cidade sombria. Concreto, poluição, violência, insanidade, solidão. Nunca tive a oportunidade de viver em outro lugar, mas durante toda a minha vida estive fora do epicentro da grande São Paulo. Que sorte a minha! Não imagino o que pode acontecer com a cabeça de uma pessoa que cresceu no meio dessa selva de pedra. Não poder pisar na grama e respirar ar limpo é frustrante. Viver nesse lugar é enlouquecedor. Não por menos, São Paulo é a cidade com maior índice de pessoas com perturbações mentais no mundo. Acho que eu já entrei pra essa lista.

Nessa última madrugada fiquei com fome e saí pra dar uma volta. Entrei no táxi e parei em uma padaria 24 horas. A luz era forte e o lugar estava cheio de gente. Nunca me senti tão só em toda a minha vida (mentira, me sinto só todos os dias). Moro com dois garotos, um é meu irmão, o outro, meu namorado. Passamos o dia todo juntos, mas nunca estivemos tão distantes uns dos outros. Vivemos em um bloco de concreto empilhado. Nossa casa é bem grande perto das casas dos nossos amigos que também saíram da casa dos pais. Mesmo assim, estamos presos em uma caixa, dia após dia.

Decorei meu apartamento mas não me sinto em um lar. As pessoas queridas… quem são mesmo? Não me lembro qual foi a última vez que encontrei um amigo. Eu vejo muitas pessoas durante o dia. Na rua, nos restaurantes, na padaria, no banco, na farmácia, e de vez em quando até aparecem algumas visitas aqui em casa. Mas nenhum deles é meu amigo. Não recebo mais convites pra sair no final de semana. Não me sinto mais à vontade pra ser eu mesma perto de ninguém.

Dizem que ser ignorante é ser feliz. Pena que descobri isso tarde demais! Agora eu já sei que aqui não é o meu lugar. São Paulo me dá medo. De dia, tenho medo das madames arrogantes que andam com seus cachorrinhos pela rua e olham feio quando você diz que o animal é uma gracinha. Tenho medo do rapaz que serve meu prato feito sem nem me desejar bom dia. Tenho medo da impessoalidade, da falta de educação, das notícias que vejo na internet e na televisão. De noite, tenho medo de sair na rua sozinha, dos homens que lançam cantadas abusivas porque eu decidi usar um shortinho, do latrocínio, de sentar sozinha em um bar e receber olhares de pena, de não ter a oportunidade de fazer um amigo verdadeiro, ou de ir pra boate e só encontrar o mesmo pessoal blasé de sempre.

Eu fico imaginando como é morar em um lugar gostoso. Seguro e calmo. Um lugar que dê pra viver, e não só sobreviver. Em que a gente não tenha que encher a cara na sexta-feira a noite pra aliviar a maratona de trabalho semanal, pra descarregar o peso de viver nessa cidade escura. Antes de vir morar no centro de São Paulo, imaginei mil maravilhas sobre a experiência que teria morando sozinha em uma “big city”. Bullshit. De big city, São Paulo só tem o tamanho. Posso parecer ranzinza, mal agradecida, pessimista ou o que for… mas depois que descobri que existem esses lugares mágicos onde 98% da experiência de vida é agradável e o restinho que sobra é a parte ruim que existe em qualquer escolha que a gente faz pra nossa vida, dá tristeza de saber que moro nesse lugar tão… triste.

É aparente e tá em todo o lugar. São Paulo transborda desespero.