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Os pais do Edu quiseram visitar a Argentina porque ia rolar uma espécie de Bienal do Livro por lá, e um dos escritores chilenos favoritos da mãe dele iria assinar exemplares de ‘Bonsai’, sua última obra publicada. O Edu curtia livros, curtia o Alejandro Zambra e até curtia bonsais, mas ele não curtia muito Bienais, muito menos se a companhia fosse a mãe ou o pai, e muito menos ainda se fossem os dois juntos. Ele esperou os dois cairem no sono, vestiu sua jaqueta jeans dos anos 80 comprada em um brechó de Nova York, pegou um maço de cigarros meio vazio de dentro da mochila e saiu do Alvear Palace Hotel sem intenção de voltar tão cedo. Tomou um ônibus qualquer e ficou dando voltas e mais voltas pela cidade enquanto ouvia Talking Heads no Ipod Touch. Lá pelas 7 da manhã ele ficou com vontade de mijar e fumar um cigarro, então desceu em La Boca pra dar uma volta.

Ele conseguiu subornar o dono de uma vendinha e comprou uma garrafa de Quilmes, e ainda por cima conseguiu usar o banheiro do cara. Naquela época o Edu não tinha nem um fiozinho de barba no rosto e parecia ser mais novo do que já era, o que dificultava um pouco as coisas quando ele queria se divertir. Foi em La Boca que o Edu viu a Jana pela primeira vez, dançando tango no meio da rua no amanhecer do dia, tendo vários ataques de riso histéricos enquanto se deitava nas mãos do dançarino. Ela tava bêbada, com os cabelos bagunçados e a maquiagem derretida. As pessoas que passavam por ali achavam que a Jana era louca, mas o Edu não. Ele achou ela tão viva, tão bonita, que foi andando em direção a ela sem nem perceber. Quando a Jana notou o Edu, sorriu pra ele e berrou: “Ei, extraño!”. Ele apontou o dedo em direção a si mesmo e fez cara de “quem, eu?”, enquanto ela acenava positivamente com a cabeça e chamava ele pra vir pra perto.

O Edu sempre foi tímido com estranhos. Naquele momento ele preferiu fingir que era outra pessoa, assim não precisaria ser tímido e poderia ir até lá descobrir o que aquela garota queria. Quando o Edu chegou perto o bastante, ela se soltou do dançarino, se virou e disse “Hola!”, e teve outro ataque de riso histérico, se jogando nos ombros dele. O Edu a pegou pela cintura e começou a rir também, até perceber que ela havia ficado em silêncio e começou a sentir um corpo mole contra o seu, como o de um polvo. Ele se virou desesperado pro dançarino perguntando com os olhos “o que eu faço com essa menina?”, e a resposta que teve foi “900 pesos, el cuenta de la chica”. O Edu pagou a conta da Jana e pediu pro garçom chamar um taxi. Ele deitou o polvo molengo e desmaiado no banco de trás e deu tchau pro dançarino da janela do passageiro. Quando chegaram em um hotelzinho charmoso no bairro de Palermo, o Edu colocou a Jana nos ombros como um saco de batatas e a carregou pra dentro. O Edu podia ter cara de criança, mas já era alto e bem forte pra um garoto com biotipo de lagartixa.

Ele deu uma bela enrolada na recepcionista do hotel e conseguiu um quarto pra dois. Quando chegou no 606, deitou a Jana na cama, tirou seus brincos de argola, suas botas de couro ecológico e colocou o cobertor sobre suas pernas branquelas e finas. Entrou debaixo do chuveiro e desligou o cérebro por 5 longos minutos. Deitou e sentiu pés quentinhos e pequenos embaixo das cobertas. Ele tentou não se sentir estranho enquanto mexia nos cabelos dela, mas mesmo assim não conseguia parar de pensar que naquele momento ele poderia ser um sequestrador em potencial e que helicópteros poderiam estar sobrevoando a cidade naquele instante, procurando pela garota de cabelo castanho deitada do lado dele. O pensamento não durou muito tempo, já que depois de 5 segundos ele já tava dentro de um sonho psicodélico com dançarinas de tango gigantes que botavam ovos coloridos e chocavam mini dançarininhas que usavam rosas nos cabelos e vestidos de cetim vermelho.

Lá pelas três da tarde, a Jana acordou e achou que tinha morrido e tava no limbo. Primeiro ela notou a dor de cabeça, depois o quarto estranho e por último o cara deitado do seu lado. “Caralho, que dor de cabeça… será que eu tomei uma porrada na cara ontem à noite? Acho que eu não devia ter tomado a décima quarta tequila. Que porra de lugar é esse… QUEM É ESSE DO MEU LADO? Meu deus, fui raptada e estuprada, tomara que eu ainda esteja com a minha orelha. Ufa, elas ainda tão aqui. Até que esse cara é bonitinho. E muito novo. É, ele não é um estuprador. Será que a gente se pegou ontem e eu não lembro? Será que a gente transou ontem e eu não lembro? Cacete…”

Eu acordei com a maior ressaca da minha vida e tinha esse cara comprido deitado do meu lado. Primeiro eu achei que tinha morrido por causa da dor de cabeça, depois achei que tinha sido estuprada e depois realizei que provavelmente eu só tinha transado com ele e esqueci de tudo. Ele não tinha cara de ser argentino. Olhei pro relógio do lado da cama e vi que já eram três e quarenta da tarde, e o garoto não acordava pra me falar o que tinha acontecido. Aí não aguentei e cutuquei a cabeça dele:

-Ou, acorda aí. Acordaaaaaaaaa.

Ele resmungou alguma coisa que parecisa ser “para de chocar esse ovo” e eu logo percebi que ele devia ser perturbado. Aí cutuquei ele de novo, dessa vez apertei o dedo contra a cabeça dele com força.

-Acordaaaaaaaaaaa.
-Hummm.. bom dia. Tá melhor?
-De ressaca, e você?
-Ressaca moral.
-Foi mal, mas eu não lembro de ter te conhecido.
-É, foi tudo muito rápido. Você tava dançando tango às 7 da manhã em uma praça em La Boca e um segundo depois caiu em cima de mim, igual a um polvo molengo.
-Hahahaha, desculpa, às vezes eu faço isso mesmo.
-Dança tango e vira um polvo?
-É, tipo isso. Então a gente não transou?
-Não, eu só te trouxe pra cá e também virei um polvo molengo.
-E por que você fez isso?
-Sei lá, você caiu em cima de mim e achei que era minha obrigação. E é claro, rolou um interesse profissional. Eu sou olheiro de dançarinos de tango e achei que você foi ótima, tô pensando em te agenciar e criar um número, que vai se chamar “O polvo molengo”. Que que cê acha?
-Hahahaha! Para de me chamar de polvo molengo porra.
-Ok polvo molengo. Como eu devo te chamar então?
-Eu sou a Jana.
-E sou o Edu.
-Quer ir pra São Paulo comigo, Edu?
-Eu meio que tô com meus pais aqui, não posso ir embora.
-Claro que pode! Vamo comigo, prometo que vai ser divertido.
-Só se você parar de desmaiar por aí.
-Isso eu não posso prometer… hahahaha.

Continua! (Clique aqui pra ler a primeira parte)