Eu sempre fui uma pessoa decidida. Meus pais diriam teimosa (e eu até concordo), mas, com certeza, sou determinada. Sempre corri atrás do que queria, e convenci o mundo ao meu redor de que eu merecia ter as oportunidades que conquistei. Nunca tive dificuldade em identificar o que eu realmente gosto de fazer, por que é fácil: são as coisas que eu faço muito melhor, por que eu as faço com amor. Olhando assim pode parecer que a minha vida foi baseadas em certezas, em seguranças e no sucesso. Só que não. De uns tempos pra cá, muitas das coisas que eu sempre quis (ou sempre achei que queria) passaram a me despertar dúvida. E mais, olhando pra algumas das coisas que eu tinha como certas na minha vida, comecei a achar que talvez não combinassem mais comigo.

As confusões se iniciaram com coisas simples, superficiais. (Como o dia em que eu fui pra minha sorveteria favorita comer o sorvete que eu mais amo no mundo, e descobri que ele não era mais tão maravilhoso assim). Com o tempo elas foram ficando maiores e eu não podia mais ignorar: até hoje eu não consigo definir o que é Direito, o que eu estou aprendendo diariamente nas aulas, e se eu consigo me ver feliz vivendo disso. A partir daí eu comecei a sentir que minha vida entrava em hiato, como se, por não ter mais as certezas que achava que tinha, não conseguiria progredir, evoluir em qualquer coisa. Eu me dei um intervalo psicológico pra pensar sobre mim mesma, meus desejos e projeções. Se por um lado eu descobria mais de mim, por outro essas confusões empesteavam minha vida: quando eu fui parar para ver, eu tinha mais dúvidas que certezas, a minha estabilidade fugiu sem dar tchau e eu não sabia por onde começar.

Eu juro: foi efeito dominó! Com meu momento “existencial” sobre o curso da faculdade, outras mil idéias surgiram na minha cabeça: “mudar meu curso para gastronomia? Ou será que eu realmente prefiro fazer um curso de confeitaria na França quando me formar?”. Na área sentimental, as confusões não ficaram para trás. A pessoa por quem sempre fui apaixonada, e amava por 3 longos anos, já não ocupava muito dos meus pensamentos. Eu comecei com um “querer quem não me quer” e “não querer quem eu já tenho” que, vou te contar, foi bem difícil pra colocar os dois pés no chão.

Com tudo isso, me deu uma baita vontade de fugir. Eu estou há exatos 6 meses trabalhando na idéia de intercâmbio pela universidade, e já houve momentos em que quase fechei com agências de viagem, fiz minhas malas e parti. Meu desejo de fuga era tão grande que eu nem tava pensando em custos, sobrevivência, pesquisar sobre o exterior: nada. Eu só queria me distanciar das minhas confusões pra ver se a resposta caía magicamente na minha frente. Mas algum dia a ficha caiu, e eu percebi que indo embora, eu levaria tudo comigo, meus problemas não se descolariam de mim. Foi então que eu resolvi ficar.

Quando eu digo “resolver ficar”, eu não quero dizer apenas que resolvi continuar a morar no Brasil. Eu quero dizer que resolvi ficar comigo mesma, não me abandonar no meio do caminho e resolver os meus conflitos. Eu já tinha me dado um “dois altos”, um intervalo pra pensar, e ainda não havia resolvido nada. Tenho que dizer: custa um pouquinho de coragem pra gente separar um momento, parar de se dar desculpas, e desfazer os nós do nosso dia-a-dia. A gente sabe que um dia tem que fazer isso, mas nunca queremos que seja hoje. Por que é difícil, demanda tempo, demanda um entendimento que às vezes ainda não conquistamos. Mas eu resolvi que o momento chegou, e que algumas coisas precisavam acontecer.

Eu resolvi alguma das minhas confusões, e preciso te falar: o tempo foi meu principal parceiro para clarear as idéias. Algumas delas, ainda estão insolucionadas (eu ainda não sei que caminho profissional pretendo seguir, mas, graças a Deus, meus pais me deixam à vontade pra fazer um segundo curso, abrir uma loja ou montar um restaurante). Mas a maioria das confusões se tornaram descobertas, e as descobertas me levaram a mudanças. Creio que esses momentos de conflitos surjam de tempos em tempos. É um jeito da vida te tirar da inércia, te chacoalhar e sussurrar: “vem muito mais por aí”.